quinta-feira, 27 de março de 2008

...::: Fábula das fábulas :::...




Uma Fábula Sobre a Fábula "Allahu Akbar! Allahu Akbar!" (Deus é Grande)




Quando Deus criou a mulher, criou também a Fantasia.


Um dia, a Verdade resolveu visitar um grande palácio.


E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harum Al Raschid.


Envoltas as lindas formas num véu claro e transparente, foi ela bater à porta do rico palácio em que vivia o glorioso senhor das terras muçulmanas.


Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas perguntou-lhe:


- Quem és?


- Sou a Verdade!


- respondeu ela, com voz firme. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Raschid, o sheik do Islão!




O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir:




- Senhor, disse,inclinando-se humilde, uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar ao nosso soberano, o sultão Harum Al-Raschid, Príncipe dos Crentes.


- Como se chama?


- Chama-se a Verdade!


- A Verdade! - exclamou o grão-vizir, subitamente assaltado de grande espanto.


- A Verdade quer penetrar neste palácio! Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? A perdição, a desgraça nossa! Diz-lhe que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!Voltou o chefe dos guardas com o recado do grão-vizir e disse à Verdade:




- Não podes entrar, minha filha. A tua nudez iria ofender o nosso califa. Com ares impúdicos não poderás ir à presença do Príncipe dos Crentes, o nosso glorioso sultão Harum Al-Raschid.


Volta pois, pelos caminhos de Allah!Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou muito triste a Verdade, e afastou-se lentamente do grande palácio do magnânimo sultão Harum Al-Raschid, cujas portas se fecharam à diáfana formosura!
Mas…Allahu Akbar! Allahu Akbar! (Deus é Grande)

Quando Deus criou a mulher, criou também a obstinação. E a Verdade continuou a alimentar o propósito de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harum Al-Raschid… Cobriu as peregrinas formas de um couro grosseiro como os que usam os pastores e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio em que vivia o glorioso senhor das terras muçulmanas.Ao ver aquela formosa mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe.


- Quem és?

- Sou a Acusação! – respondeu ela, em tom severo. Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Raschid. Comendador dos Crentes.

O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu a entender-se com o grão-vizir.

- Senhor – disse, inclinando-se humilde -, uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano, o sultão Harum Al-Raschid.


- Como se chama?- A Acusação!- A Acusação? – repetiu o grão-vizir, aterrorizado. – A Acusação quer entrar neste palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! A perdição, a desgraça nossa! Diz-lhe que uma mulher, sob vestes grosseiras de um zagal, não pode falar ao Califa, nosso amo e senhor.


Voltou o chefe dos guardas com a proibição do grão-vizir e disse à Verdade:


- Não podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderás falar ao nosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Raschid. Volta, pois, em paz, pelos caminhos de Allah.


Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou ainda mais triste a Verdade e afastou-se vagarosamente do grande palácio do poderoso Harum Al-Raschid, cuja cúpula cintilava aos últimos clarões do sol poente.Mas…Allahur Akbar! Allahur Akbar!


Quando Deus criou a mulher criou também o capricho.

E a Verdade entrou-se do vivo desejo de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harum Al-Raschid.Vestiu-se com riquíssimos trajes, cobriu-se com jóias e adornos, envolveu o rosto em um manto diáfano de seda e foi bater à porta do palácio em que vivia o glorioso senhor dos Árabes. Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta lua do mês do Ramadão, o chefe dos guardas perguntou-lhe:


- Quem és?

- Sou a Fábula – respondeu ela, em tom meigo e mavioso. – Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso sultão Harum Al-Raschid, Emir dos Árabes!

O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a falar com o grão-vizir.- Senhor – disse, inclinando-se, humilde -, uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita audiência de nosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Raschid, Emir dos Crentes.


- Como se chama?

- Se chama Fábula!

- A Fábula! – exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. – A Fábula quer entrar neste palácio! Allah seja louvado! Que entre! Bem-vinda seja a encantadora Fábula. Cem formosas escravas irão recebê-la com flores e perfumes. Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!

E abertas de par em par as portas do grande palácio de Agrabah, a formosa peregrina entrou.E foi assim, sob o aspecto da Fábula, que a Verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Agrabah, o sultão Harum Al-Raschid, Vigário de Allah e senhor do Islão.





Lenda árabe recontada por Malba Tahan

Sem comentários: