sexta-feira, 20 de março de 2009

...::: YEAHHHHHHHHHHHH :::...

Crítica Ípsilon por:

Rui Pina Coelho

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Em Brecht, Gonçalo Amorim e uma brava equipa de criadores descobrem a matéria necessária para construir uma desassombrada reflexão sobre a sua geração, sobre o nosso mundo

O pobre BB tem hoje 30 anos e está a recibos verdes. Foi visto, recentemente, a apedrejar uma vitrina em Atenas e a incendiar um Peugeot em Paris. O pobre BB está cada vez mais irritado e teimoso como nunca.

E está, também, cada vez mais generoso e atento ao mundo que o rodeia. É este o Brecht que Gonçalo Amorim e uma brava equipa de criadores trazem ao grande auditório da Culturgest: um autor onde descobrem a matéria necessária para construir uma desassombrada reflexão sobre a sua geração, sobre o nosso mundo, sobre o nosso desemprego, sobre as nossas guerras, sobre a nossa crise económica, sobre a nossa violência e sobre o nosso teatro.

Em 1960, Barthes escrevia "Sobre ''A Mãe'' de Brecht": "O amor, aqui, não é efusão. É essa força que transforma o facto em consciência, e depois em acção: é o amor que abre os olhos. Será então preciso ser ''fanático'' de Brecht para reconhecer que esse teatro vibra?"

Amorim et al. estão de olhos abertos, não acusam qualquer fanatismo (formal ou estético) e obrigam o seu amor a fazer o mesmo abnegado itinerário: facto-consciência-acção. Os factos são os do texto e os de agora; a consciência é a de uma geração de actores-criadores que associa atenção social a inquietação estética; a acção é um espectáculo que não tem medo de levantar o punho e de chamar os "bois pelos nomes". Porque é preciso. E porque já (ainda?) não há muitos a fazê-lo.

"A Mãe" de Amorim, que denota uma desmedida tendência cinemática (na abertura da cena, nas projecções de vídeos e de sombras), tem um ritmo implacável. Os quadros sucedem-se rapidamente e sem que haja, geralmente, uma clara separação, deixando que a tensão de cada segmento contamine o próximo.

Isto imprime ao espectáculo uma cadência absolutamente vertiginosa. Com efeito, os dez actores e os dois músicos parecem sempre ocupados com qualquer coisa: com a montagem da cena, com o transporte de adereços, com as canções ou com a criação de quadros visuais.

E este talvez seja o traço mais distintivo desta encenação: o espectáculo parece ter duas paisagens. Uma, em primeiro plano, a narrativa da mãe, Pelagea Vlassova, que vai descobrindo os caminhos da acção política animada pelo amor ao seu filho, o revolucionário Pavel - jogada com uma estranha mescla de ironia, distanciamento ideológico e de comprometimento; e uma outra paisagem, disseminada pelo espaço, a composição corporal de quadros poéticos (um homem de corpo abandonado numa cadeira de plástico, uma rapariga que sopra bolas de sabão, uma mulher grávida que puxa um elástico, um homem que deambula ao longe...) - jogados com gravidade e sóbria pungência.

Estes quadros, mais do que iluminar a narrativa em primeiro plano, criam estados impressivos no espectador e ganham na economia narrativa do espectáculo a mesma função que as canções, ou seja, "sintetiza[m] ideias, expande[m] o impacto da obra, acrescenta[m] vibração ao texto de Brecht" (Pedro Boléo, no programa do espectáculo). Aqui, destaque-se a brilhante interpretação do pianista João Paulo Esteves da Silva e refira-se a participação musical de Pedro Boléo e Carloto Cotta, que vão pontuando o espectáculo com uma sonoridade lúdica recorrendo a diversos instrumentos de sopro e percussão.

A adicionar a estas duas paisagens, há ainda a projecção de legendas que vão comentando despudoradamente a acção, não nos deixando esquecer que "Portugal é um país igualzinho aos outros" e convocando, por exemplo, os recentes tumultos em Atenas.

Mas este é também um espectáculo divertido e contaminado por uma carnavalização que se alimenta do gozo pelo jogo teatral, brilhantemente suportado por um elenco de um equilíbrio e segurança invulgares. Sendo por vezes cacofónico, arrítmico e deliberadamente imperfeito, faz destas características as marcas de uma inquietante reflexão poética e política. E não é preciso ser fanático de Brecht para reconhecer que este teatro vibra, pois não?


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