terça-feira, 14 de julho de 2009

...::: Style Islam :::...

Ser muçulmano está na moda
O protesto de um alemão muçulmano contra a publicação das caricaturas de Maomé e as reações violentas a ela se transformou numa grife que está conquistando os jovens muçulmanos da Europa

INOVADOR
Melih Kesmen decidiu protestar contra as caricaturas do profeta Maomé e contra as manifestações violentas

Melih Kesmen é um muçulmano de 33 anos que trabalha como designer na pequena cidade de Witten, na Alemanha. Ao contrário de 87% dos 3,2 milhões de seguidores do Islã que vivem no país, Kesmen nasceu na Alemanha, e se considera um “muçulmano europeu”.

Em 2005, quando morava em Londres, foi um dos milhões de muçulmanos que sentiu ofendido com as caricaturas de Maomé publicadas pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten. A reprodução do profeta é proibida no Islã, e a publicação, repetida por diversos outros jornais europeus, serviu para acirrar ainda mais a conturbada convivência do mundo ocidental com os muçulmanos. Kesmen, abalado tanto pela publicação das imagens quanto pelas violentas reações do outro lado do mundo, decidiu protestar. E hoje a manifestação se tornou a grife StyleIslam, que vem conquistando cada vez mais os jovens muçulmanos europeus, como Kesmen, com mensagens pacíficas.

ÉPOCA – Como você teve a idéia de criar a StyleIslam?
Melih Kesmen – A ideia surgiu quando publicaram aquelas charges na Dinamarca [em setembro de 2005]. Por um lado, fiquei pensando que a atitude do jornal foi incrivelmente errada, pois as relações do Ocidente com o mundo muçulmano não estavam nada bem. Ao mesmo tempo, fiquei bravo com meu povo, pois os via na televisão queimando bandeiras e fazendo outras coisas do tipo em países como o Afeganistão e o Paquistão. Pensei, então, que deveria haver um modo de mostrar minha posição de maneira positiva, produtiva e criativa, especialmente sendo muçulmano, e aí fiz uma camiseta para mim com a inscrição “eu amo meu profeta”.

ÉPOCA – E qual foi a repercussão?

Kesmen – Na época eu morava em Londres e nunca esperava a reação que obtive. Mas em restaurantes e pubs muitas pessoas vinham me perguntar onde eu tinha comprado a camiseta e se eu podia fazer uma para elas. Foi interessante também o fato de muitos não muçulmanos terem gostado, pois eles viam as diferenças entre a forma que eu estava me comunicando e aquelas imagens de protestos nos jornais.


ÉPOCA – Hoje existem quantas lojas?
Kesmen – Ainda não criei um sistema de franquias, e por isso estamos trabalhando com outras lojas que vendem nossos produtos e distribuidores online nos Estados Unidos, Canadá, Turquia e muitos países europeus.

ÉPOCA – Só há um distribuidor em um país muçulmano, a Turquia. Há alguma resistência ao seu trabalho por parte de muçulmanos mais ortodoxos?
Kesmen – Estamos recebendo muitos e muitos e-mails e pedidos de pessoas de países muçulmanos. A maior parte é com reações positivas, mas há alguns que reclamam, assim como há cristãos e judeus que também não gostam de algumas coisas.




À esquerda, a ideia que deu origem à grife: "eu amo meu profeta". À direita, uma defesa do "hijab", o véu muçulmano que causa polêmica na Europa: "Hijab, meu direito, minha escolha, minha vida"

ÉPOCA – É verdade que você recebeu ameaças por conta de uma camiseta com a inscrição "Jesus era muçulmano"?

Kesmen – Sim, aconteceu há um ano. Do ponto de vista linguístico não há problema com a palavra "muçulmano", pois em árabe ela significa “alguém que serve a Deus”. E Jesus foi um dos principais profetas do Islã. Mas depois dos incidentes mudamos o design para “Jesus e Maomé, irmãos na fé”. A mensagem é a mesma. Nunca houve a intenção de provocar algum grupo, mas se você quer construir pontes para unir culturas e religiões, sempre haverá pessoas que não gostam disso. São aqueles completamente radicais, que tivemos de aprender a ignorar.

ÉPOCA – E há não muçulmanos que compram seus produtos?

Kesmen – Nem todos os produtos, porque alguns dos motivos são bem voltados para os muçulmanos. Mas há três produtos em especial que os não muçulmanos compram muito, como aqueles contra as guerras, os de Jesus e Maomé e outro que diz “Faça çay, não faça guerra”. O çay é o chá turco e como muitos alemães viajam para a Turquia, até por conta da grande presença de turcos aqui, esse motivo é um dos mais vendidos para não muçulmanos.

ÉPOCA – Qual é o motivo que mais vende?

Kesmen – Ainda é o “eu amo meu profeta”. Eu não sei o porquê, mas acho que é o mais inspirador. Foi uma ideia que veio do coração, então talvez seja por isso.
"As pessoas esperam que os muçulmanos mostrem que fazem parte da civilização ocidental e que podem ser produtivos nesta sociedade"





Aqui, uma tentativa de afastar a imagem negativa da fé islâmica construída por militantes nas últimas décadas: "terrorismo não tem religião"


ÉPOCA – Você acha que essa combinação entre fé e moda pode servir para outras religiões?Kesmen – Desde que a mensagem seja positiva, que a intenção seja apenas comunicar o que você é, com o que você se identifica, e aproximar as religiões, todas os credos deveriam fazer isso. Se a ideia geral é positiva e tiver como objetivo aumentar o diálogo entre as religiões, eu espero que eu consiga inspirar judeus e católicos a tomar uma iniciativa parecida.

ÉPOCA – O Islã tem uma imagem carregada de radicalismo no mundo ocidental. Você acredita que seu trabalho pode ajudar a mudar essa imagem?

Kesmen – Tenho certeza disso. As reações da mídia ocidental mostram que as pessoas estão esperando surgir uma imagem mais positiva do islamismo. Elas esperam que os muçulmanos mostrem que fazem parte da civilização ocidental e que podem ser produtivos nesta sociedade. Eu posso dizer que sou um europeu muçulmano.

ÉPOCA – Os produtos da sua grife são feitos para muçulmanos que vivem em países não muçulmanos?

Kesmen – Essa foi uma grande surpresa para mim e para as pessoas que trabalham comigo e que mostrou o quanto nós somos europeus. Você pode ver isso pelo fato de ainda não termos conseguido estabelecer nosso produto em países muçulmanos. Sabemos como a Europa funciona, como devemos agir aqui, como são a distribuição e o parque industrial, mas os países árabes e muçulmanos estão muito distantes de nós e, na verdade, não os conhecemos tão bem.


ÉPOCA – E qual é o futuro da StyleIslam?

Kesmen – Queremos criar mais produtos para garotas, pois há uma grande demanda. Será um desafio pois a vestimenta das mulheres muçulmanas é muito diferente no Ocidente e nos países islâmicos. Estamos fazendo hijabs [véus] e túnicas e tentando unir a humildade da vestimenta islâmica com a modernidade.


*copiei a entrevista tal qual está no site, por isso está num português "brasileiro" e algumas coisas mal traduzidas, não é Maomé (termo absorvido da língua Francesa) mas sim MOHAMMED em português...

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